Quando conversava com a mulher samaritana junto ao poço de Jacó, Jesus disse a ela:

“Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos, porque a salvação vem dos judeus” (João 4:22).

Por “vós” Jesus estava se referindo aos samaritanos; por “nós” Ele estava se referindo aos judeus. Assim Ele se identificou com os judeus; Ele falou como um deles. No último livro da Bíblia, Apocalipse 5:5, Jesus é chamado de “o Leão da tribo de Judá”. “Judá” é o nome de onde vem a palavra “judeu”. É importante que todos nós entendamos que existe uma maneira pela qual Jesus é especificamente identificado com os judeus; e que essa identificação não cessou com Sua vida terrena, mas continua nas Escrituras depois de Sua morte, sepultamento e ressurreição - por toda a eternidade.

É igualmente importante que todos nós reconheçamos a verdade do que Jesus disse à mulher samaritana: “a salvação vem dos judeus”. Este é um fato histórico indiscutível. Sem os judeus não teríamos patriarcas, nem profetas, nem apóstolos, nem Bíblia - e nem Salvador! Privados de tudo isso, quanta salvação teria restado para nós? Nenhuma!

Todas as outras nações da terra devem tudo o que há de mais precioso em sua herança espiritual aos judeus. Isso é verdade para todos nós – sejam árabes, africanos, asiáticos ou europeus – russos, americanos ou chineses. Todos nós temos uma dívida espiritual com os judeus que não pode ser calculada.

A Bíblia deixa claro que Deus exige que os cristãos de todas as outras nações reconheçam sua dívida para com os judeus e façam o que puderem para pagá-la. No capítulo 11 de Romanos, Paulo está escrevendo principalmente para os gentios. No versículo 13 ele diz: “Pois eu falo a vocês, gentios...” Ele lembra os gentios de sua dívida para com os judeus e os adverte contra a adoção de uma atitude arrogante ou ingrata para com Israel. Uma análise deste capítulo mostrará que Paulo usa o nome “Israel” para se referir àqueles que são judeus por descendência natural e para distingui-los dos cristãos que não são de origem judaica. Em outras palavras, ele não usa “Israel” como sinônimo de Igreja.

Em Romanos 11:30-31, Paulo resume o que tem dito sobre a dívida e a responsabilidade dos cristãos gentios para com Israel. (Por uma questão de clareza, eu inseri as palavras apropriadas – “Israel” ou “gentios” – entre colchetes ao lado dos pronomes):

“Porque assim como vós [gentios] também antigamente fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência deles [de Israel], Assim também estes [Israel] agora foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia [dos gentios] a vós [a Israel] demonstrada.”

Em outras palavras, por causa da misericórdia de Deus que veio até nós como cristãos gentios por meio de Israel, Deus exige que, por nossa vez, mostremos misericórdia a Israel. Como devemos cumprir esta obrigação? A seguir estão quatro maneiras práticas pelas quais podemos fazer isso.

Primeiro, podemos cultivar e expressar uma atitude de amor sincero pelo povo judeu. A maioria das formas padronizadas de “testemunho” ou “pregação” praticadas pelos cristãos não atingem o coração do povo judeu. Na verdade, esse tipo de prática pode até deixá-los irritados e alienados. Mas é incrível como o exterior aparentemente duro de um judeu se derrete quando confrontado por um amor caloroso e não fingido. Depois de dezenove séculos de dispersão entre as outras nações, há uma coisa que os judeus raramente encontraram - e isso é amor! Pelo amor de Deus, paremos de tentar fazer “convertidos” do povo judeu e comecemos a pagar a dívida de amor que temos para com eles por tantos séculos.

Em segundo lugar, em Romanos 11:11, Paulo diz que

“Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, por causa da transgressão deles veio salvação aos gentios, para provocar ciúme em Israel” (NVI).

Esta é outra maneira significativa pela qual podemos pagar nossa dívida para com os judeus - desfrutando e demonstrando a abundância das bênçãos de Deus em Cristo de tal maneira que os judeus possam ficar com ciúmes e desejar o que eles nos veem desfrutando. Essas bênçãos devem ser vistas em todas as áreas de nossa vida — espiritual, física, financeira e material. Mas, acima de tudo, eles devem ser expressos em nossa vida como crentes ativos e parte de um todo,ou seja, do corpo de Cristo, manifestando-se em uma vida de retidão, paz e alegria no Espírito Santo.

Infelizmente, ao longo dos séculos, os judeus têm visto pouco nos cristãos que pudessem provocar lhes ciúmes. Eles viram várias seitas, reivindicando o título de “cristãs”, criticando umas às outras e até mesmo matando umas às outras — tudo em nome do cristianismo. Em nenhum lugar a desunião cristã foi mais flagrantemente demonstrada do que na cidade considerada sagrada por cristãos e judeus - Jerusalém. Frequentemente, nos chamados “lugares sagrados” da cristandade, representantes de diferentes seitas cristãs se enfrentam e derramam o sangue uns dos outros — em prova de sua ortodoxia e em defesa de seus santuários e privilégios. Em mais de uma ocasião, desde que o estado de Israel surgiu, missionários de um certo grupo cristão foram e solicitaram aos líderes judeus que deportassem algum outro grupo cristão de Israel. Como, com tudo isso, os judeus podem dizer: "Vejam como esses cristãos se amam!"

Em terceiro lugar, a Bíblia nos exorta a buscar o bem de Israel por meio de nossas orações:

“Orai pela paz de Jerusalém: prosperarão os que te amam.” (Salmo 122:6)

Para orar eficazmente dessa maneira, precisamos buscar nas Escrituras os propósitos de Deus para Israel e para Jerusalém, e então nos dedicarmos a orar de forma inteligente e consistente pela realização e cumprimento desses propósitos. Ao fazermos esse estudo das escrituras, descobriremos que, por fim, a retidão e a paz foram ordenadas para fluir de Jerusalém para todas as nações da Terra; e assim o bem-estar de todas as nações está incluído nesta oração por Jerusalém e depende de seu cumprimento.

Um padrão bíblico desafiador desse tipo de oração é fornecido por Daniel, que se pôs a orar três vezes ao dia com sua janela aberta para Jerusalém. As orações de Daniel perturbaram tanto Satanás e ameaçaram tanto o seu reino que ele usou a inveja de alguns ímpios para provocar uma mudança nas leis de todo o Império Persa, tornando as orações de Daniel ilegais. Por outro lado, orar por Jerusalém significava muito para Daniel, tanto, que ele preferiu ser lançado na cova dos leões do que desistir de orar. Por fim, a fé e a coragem de Daniel venceram a oposição satânica e ele saiu triunfante da cova dos leões para continuar orando por Jerusalém. (Ver Daniel capítulo 6.)

Gostaria de acrescentar meu ponto de vista nessa situação, baseado em minha própria e vasta experiência. Eu descobri que fazer um compromisso desse tipo de orar por Jerusalém e Israel definitivamente provocará a ira de Satanás. Mas, por outro lado, descobri que a promessa de Deus dada àqueles que oram dessa maneira também será verdadeira: “prosperarão os que te amam”. Este é um caminho bíblico para a prosperidade - não apenas no sentido financeiro ou material, mas como uma garantia permanente do favor, provisão e proteção de Deus.

Em quarto lugar, podemos buscar pagar nossa dívida para com Israel por meio de atos práticos de bondade e misericórdia. Em Romanos 12:6–8, Paulo lista sete diferentes dons (do grego "charismata") que os cristãos devem cultivar e exercitar. O último que ele menciona é o de “mostrar misericórdia”. Eu acredito que é apropriado que nós, cristãos, exerçamos este dom não apenas para judeus individuais, mas para Israel como nação. Assim, de certa forma, expiaríamos os incontáveis ​​atos de injustiça, crueldade e barbaridade que ao longo dos séculos foram infligidos aos judeus - muitas vezes em nome do cristianismo.

Poucos cristãos gentios estão cientes da atitude profundamente arraigada, mas raramente declarada, dos judeus em relação a eles. Os judeus sofreram perseguições de muitas formas diferentes de muitas pessoas diferentes, mas - em sua visão da história - seus perseguidores mais cruéis e consistentes foram os cristãos. Antes de rejeitarmos essa visão como falsa ou injusta, vamos dar uma olhada rápida no tipo de fatos históricos nos quais ela se baseia.

Na Idade Média, as cruzadas, em seu caminho pela Europa para “libertar” a Terra Santa, massacraram comunidades judaicas inteiras – homens, mulheres e crianças – chegando a muitas centenas. Mais tarde, quando conseguiram capturar Jerusalém, derramaram mais sangue e demonstraram mais crueldade do que qualquer um dos muitos conquistadores de Jerusalém antes deles — exceto talvez os romanos sob Tito. Tudo isso eles fizeram em nome de Cristo e tendo a cruz como seu emblema sagrado. (Por esta razão, pessoalmente, nunca fico feliz em ver qualquer apresentação genuína do evangelho descrita pela palavra “cruzada”.)

Mais tarde ainda, nos guetos da Europa e da Rússia, foram os padres cristãos carregando crucifixos que lideraram as turbas contra as comunidades judaicas — pilhando e queimando suas casas e sinagogas, estuprando suas mulheres e assassinando aqueles que tentavam se defender. A justificativa deles para isso era que foram os judeus que “assassinaram a Cristo”.

Novamente, dentro da memória viva, os nazistas - em seu extermínio sistemático de seis milhões de judeus na Europa - usaram como seus instrumentos homens que eram cristãos professos - principalmente luteranos e católicos. Além disso, nenhum grande grupo cristão, na Europa ou em outro lugar, ergueu a voz para protestar ou condenar a política nazista contra os judeus. Aos olhos dos judeus, multidões de cristãos já estão condenados só por terem ficado em silêncio.

Para desfazer o efeito dessas experiências sobre o povo judeu - e incontáveis ​​outras como elas - será preciso mais do que folhetos ou sermões. Isso exigirá atos - tanto individuais quanto coletivos - que sejam manifestamente tão gentis e misericordiosos quanto os atos anteriores foram injustos e cruéis.

Por fim, precisamos ter em mente que um fator importante no julgamento de Deus sobre todas as outras nações será o tratamento dado aos judeus. Em Mateus 25:31–46, temos uma imagem de Cristo como Rei no fim desta era, no trono de Sua glória, com todas as nações apresentadas perante Ele para julgamento. Eles são separados em duas categorias: as “ovelhas”, que são aceitas no reino de Cristo, e os “bodes”, que são rejeitados de Seu reino. Em cada caso, a razão dada por Cristo é: “quando o fizestes - ou não - a um destes meus pequeninos irmãos”. As nações que mostram misericórdia para com os judeus receberão misericórdia de Deus; as nações que negam misericórdia aos judeus terão a misericórdia de Deus negadas a elas.

Em certa medida, isso já foi provado muitas vezes na história. Por exemplo, nos séculos XV e XVI, a Espanha era a nação dominante da Europa, com um alto nível de cultura, um exército e uma marinha poderosos e um império que abrangia os dois hemisférios. Mas, um século depois de expulsar todos os judeus de seus territórios, a Espanha declinou para uma potência de segunda categoria.

Com base na minha memória e experiência pessoal, o mesmo aconteceu com minha própria pátria, a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha saiu vitoriosa de duas Guerras Mundiais, mantendo intacto um império que talvez tenha sido o mais extenso da história da humanidade. Mas entre 1947-1948, como administradora da Palestina, a Grã-Bretanha se opôs e tentou impedir o renascimento de Israel como uma nação soberana com seu próprio estado. (Como eu estava morando em Jerusalém durante esse período, faço esta declaração como testemunha ocular do que realmente aconteceu). A partir desse momento histórico, o império da Grã-Bretanha passou por um processo de declínio e desintegração tão rápido e total que não pode ser explicado apenas pelos fatores políticos, militares ou econômicos relevantes. Hoje, menos de uma geração depois, a Grã-Bretanha - como a Espanha - é uma potência de segunda categoria em termos de poder.

Isso representa, pelo menos em parte, o cumprimento de um princípio divino declarado em Isaías 60:12:

“Porque a nação e o reino que não te servirem perecerão; sim, essas nações serão de todo assoladas.”

Deus aqui promete a Israel, e também adverte todos os gentios, que Ele trará julgamento sobre qualquer nação que se opuser aos Seus propósitos de redenção e restauração para Israel. Portanto, ao buscar e orar pelo bem de Israel, os cristãos gentios precisam se lembrar de que estão servindo não apenas aos interesses de Israel, mas ainda mais aos de sua própria nação.