A Ilusão da Independência

Derek Prince
Published: 1998
Last Updated: September 2026
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A independência em relação a Deus é a raiz da rebeldia que busca conhecimento, religião e riqueza sem levar Deus em conta. Com base nos exemplos de Adão, Paulo e Jacó, esta carta de ensino mostra como a cruz de Cristo lida com o pecado e com a rebelião egocêntrica. Ser discípulo significa abandonar as falsas fontes de segurança e depender inteiramente de Deus.
“E sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.”¹ Certamente esse é um ideal elevado e louvável — ser como Deus. Como poderia haver algo de errado com isso? No entanto, na boca de Satanás - manifestando-se na forma de uma serpente - essa fala seduziu Adão e Eva a um desastre, cujas consequências malignas afetaram todos os seus descendentes.
Qual foi a armadilha secreta da qual Adão e Eva foram vítimas? Foi a motivação, não declarada, mas implícita, de uma promessa de independência. Depois de conhecer o bem e o mal, vocês estarão livres para tomar suas próprias decisões. Não serão mais dependentes de Deus.
Este desejo arrogante de independência foi transmitido por herança a toda a raça humana que descende de Adão e Eva. É a marca distintiva do “velho Adão” — a natureza pecaminosa decaída que se esconde em cada um de nós.
Diferentes Caminhos para a Independência
Historicamente, tem havido vários caminhos que a humanidade tem seguido em busca de se tornar independente de Deus. O primeiro é o conhecimento. No jardim do Éden havia duas árvores especiais: a árvore da vida e a árvore do conhecimento. Foi um momento crítico na história, quando Adão e Eva se afastaram da árvore da vida e escolheram a árvore do conhecimento.
Desde então, a obtenção de conhecimento tem sido um dos principais objetivos do ser humano. Nos últimos dois ou três séculos, uma ênfase cada vez maior tem sido dada à ciência. A palavra “ciência” é derivada diretamente de scientia, a palavra latina para “conhecimento".
Esta explosão da ciência não resolveu, no entanto, os problemas mais básicos da humanidade: injustiça, crueldade, guerra, pobreza, doença. Na verdade, de certa forma, eles têm aumentado. A ciência forneceu ao homem armas de destruição em massa que poderiam destruir toda a raça humana e transformar toda a terra em um deserto desolado. Além disso, algumas dessas armas estão nas mãos de homens cruéis e perversos, que não deixariam de usá-las por razão de misericórdia ou de moralidade.
Um segundo caminho que a humanidade tem seguido na busca de alcançar a independência de Deus é, a princípio, surpreendente. É a religião. De várias formas diferentes, os homens estabeleceram regras religiosas e sistemas de adoração tão completos e suficientes que não há mais necessidade de Deus. Tudo o que eles precisam fazer é manter suas regras.
Isso é verdade para algumas formas de religiões praticadas no mundo - judaísmo, islamismo, budismo e até mesmo algumas versões do cristianismo. Em todas essas religiões, as pessoas podem ficar tão satisfeitas com suas regras e procedimentos que se tornam independentes do próprio Deus. Isso explica por que pessoas sinceras e religiosas às vezes são as mais lentas para reagir positivamente àquilo que o evangelho expressa como sendo de graça, aquilo que não pode ser adquirido através de obras.
Outra maneira pela qual o homem busca alcançar a independência de Deus é acumulando grandes quantias de dinheiro e bens materiais. Jesus contou a parábola de um rico proprietário de terras que se tornou tão bem-sucedido que não tinha mais espaço para armazenar sua colheita. Ele decidiu construir depósitos ainda maiores e então diria à sua alma: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”²
Ao longo da história, por causa desse mesmo desejo de independência, inúmeras pessoas foram seduzidas a cometer esse mesmo erro trágico. E isso acontece ainda hoje.
Este desejo de ser independente de Deus é a marca distintiva de todos os que pertencem ao reino de Satanás - anjos rebeldes, demônios, a humanidade caída. É também a marca distintiva do “mundo”, a respeito do qual Jesus disse de Seus discípulos: “Não são do mundo, como eu do mundo não sou.”³
Nesse sentido, o “mundo” consiste em todas as pessoas que nunca se submeteram à autoridade do Rei designado por Deus — Jesus Cristo, o Senhor. Algumas delas são pessoas morais e religiosas, mas quando são desafiadas com a exigência de Deus de se submeter sem reservas à autoridade de Jesus, o “velho homem” rebelde e independente vem à tona e elas rejeitam a oferta de salvação por meio exclusivo da graça.
Humanidade Solitária e Alienada
Esse desejo de ser independente de Deus separa os homens das outras criaturas de Deus que exibem uma dependência uniforme e inquestionável do seu Criador.
Nenhum dos corpos celestes demonstra qualquer desejo de independência. “Ele fez a lua para marcar estações; o sol sabe quando deve se pôr.”⁴ As estrelas respondem a seus nomes quando Deus as chama. “Conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes.”⁵
Não importa o quão turbulentos os elementos possam parecer às vezes, eles sempre obedecem ao seu Criador - “Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso que executa a sua palavra.”⁶
O mesmo se aplica à criação animal. “Os leõezinhos bramam pela presa, e de Deus buscam o seu sustento.” ⁷ “Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há seres sem número, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios; e o leviatã que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno.”⁸ A respeito das aves, Jesus nos diz: “e vosso Pai celestial as alimenta.”⁹
Não é de admirar que o homem rebelde às vezes se sinta solitário e alienado do universo ao seu redor, no qual todas as outras criaturas funcionam juntas em uma dependência do seu Criador que é inquestionável.
O Caminho de Volta à Dependência
Na cruz, Jesus forneceu um remédio duplo para nossa condição caída. Primeiro, Ele pagou, em nosso lugar, a penalidade total por todos os nossos pecados e assim possibilitou que Deus nos perdoasse sem comprometer Sua própria justiça. Em segundo lugar, Jesus também se identificou com o ego independente e egoísta que domina nossa natureza decaída. Em Jesus aquele rebelde foi morto. “o nosso homem velho [o rebelde] foi com Ele crucificado.”¹⁰
Para nos tornarmos discípulos de Jesus, cada um de nós deve se valer desse duplo remédio. Primeiro, devemos ter certeza de que—por meio do arrependimento e da fé—todos os nossos pecados foram perdoados. Em segundo lugar, devemos concordar com a sentença de morte pronunciada sobre nosso ego rebelde e independente.
Daí as condições para o discipulado que Jesus estabeleceu: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo.”¹¹
A palavra traduzida como “renunciar” poderia ser traduzida como “dizer adeus a”. Tornar-se um discípulo de Jesus significa dizer adeus a tudo de que normalmente dependeríamos - família, amigos, dinheiro, carreira, honra ou prestígio mundano. Uma vez que renunciamos verdadeiramente a todas essas coisas, Deus pode até nos devolver alguma coisa que se encaixe em Seu propósito para nossas vidas. Mas não somos mais possuidores; somos apenas mordomos, obrigados a prestar contas do uso que fazemos delas. Mas, mesmo assim, devemos depender exclusivamente de Deus.
Às vezes, pode ser necessário haver uma crise — ou mesmo um aparente desastre — para nos levar ao ponto em que reconhecemos plenamente nossa dependência de Deus. Penso na viagem de Paulo a Roma, descrita em Atos 27. Deus tinha um plano especial para Paulo ir a Roma, a capital do Império Romano. Como o “apóstolo dos gentios”, ele tinha uma contribuição que só ele poderia dar à Igreja daquele lugar.
No entanto, Paulo viajou como prisioneiro acorrentado. O navio em que ele viajou encontrou uma tempestade tão terrível que por duas semanas eles nunca viram o sol durante o dia ou as estrelas à noite. Por fim, todos naufragaram na costa acidentada de Malta. Lá — para coroar tudo — Paulo foi mordido por uma cobra venenosa!¹² Se era a vontade de Deus que Paulo fosse a Roma, por que ele passou por provações tão extraordinárias em sua jornada para lá?
Ao refletir sobre isso, lembrei-me de uma frase em Atos 27:20: “fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos”. Esse foi o propósito das provações de Paulo: levá-lo ao ponto em que não restava mais nada no qual colocar a sua esperança. Agora, Paulo não tinha mais nada no qual esperar, a não ser o próprio Deus. Foi quando ele, por experiência própria, tirou a prova de que Deus é suficiente o bastante. Deus nos leva ao ponto de depender dEle e tão somente dEle para demonstrar que nós podemos confiar plenamente na Sua fidelidade.
Tendo chegado a este lugar de total dependência, Paulo estava pronto para ministrar aos cristãos em Roma. Sua jornada até lá o havia preparado. Esgotado de toda autossuficiência, ele era um canal submisso e pelo qual as bênçãos de Deus poderiam fluir para os cristãos de Roma. Temos a tendência de esquecer que, embora Paulo fosse um apóstolo, ele também era um discípulo — sob a disciplina do Senhor.
Gradualmente - ao longo dos anos - tenho aprendido esta lição de total dependência. Tenho que confessar que tenho sido devagar no meu aprendizado. Deus usou diferentes circunstâncias em diferentes momentos para reforçar a lição. Mas descobri que quanto mais completamente dependo de Deus, mais Ele me surpreende com os resultados que se seguem - resultados que eu nunca poderia ter alcançado se dependesse dos meus próprios esforços.
A Rendição de Jacó
Jacó é um personagem da Bíblia que enfrentou um combate físico para desistir de sua independência. Quando jovem, ele era astuto, ambicioso e egoísta. Aproveitando-se de um momento de fraqueza física de seu irmão Esaú, Jacó compra dele o direito de primogenitura por uma tigela de sopa. Jacó, a fim de obter a bênção paterna que normalmente vinha com a primogenitura, enganou seu pai Isaque, que era cego, fazendo-se passar por Esaú.
No entanto, nem a primogenitura nem a bênção fizeram muito bem a Jacó. Para escapar da vingança de Esaú, ele fugiu para a Mesopotâmia e tornou-se refugiado com seu tio Labão. Ali novamente ele demonstrou sua astúcia. Ele se casou com as duas filhas de Labão e adquiriu a maior parte da riqueza dele.
Então o Senhor lhe disse que era hora de voltar para a terra de sua herança. No caminho de volta, porém, ele encontrou um estranho misterioso que lutou com ele a noite toda. No final, o estranho deslocou a coxa de Jacó (o músculo mais forte de seu corpo) e Jacó agarrou-se a ele em total dependência.
Somente depois desse encontro, Jacó poderia realmente retornar à sua herança. Mas pelo resto de sua vida ele teve que mancar - a marca externa da independência rendida.
Quem era o estranho que lutou com Jacó? Primeiro, ele é chamado de Homem. Mas no dia seguinte Jacó disse: “Tenho visto a Deus face a face.”¹³ Mais tarde, o profeta Oseias disse sobre esse encontro: “[Jacó] lutou com o anjo, e prevaleceu.”¹⁴
Portanto, esta mesma Pessoa era um Homem, mas Deus, e também um Anjo, isto é, um mensageiro de Deus. Há apenas uma Pessoa no universo que responde a esta descrição: um Homem, contudo Deus, e também um mensageiro de Deus. É a Pessoa que se manifestou na história humana como Jesus de Nazaré - um Homem, mas também Deus e um mensageiro de Deus para o homem.
O destino de Jacó foi finalmente estabelecido por este encontro. Depois disso, ele foi restaurado à sua herança e também se reconciliou com seu irmão Esaú.
Talvez você tenha enxergado um pouco de si mesmo nesta experiência de Jacó. Você também tem lutado em sua própria força para ganhar uma herança espiritual que sente que Deus tem para você, mas que, de alguma forma, ainda lhe escapa das mãos. Você precisa fazer exatamente o que Jacó fez: entregar-se sem reservas ao Senhor Jesus Cristo.
Mas lembre-se: a partir de agora, pode ser que você ande mancando!
Prayer Response
Senhor Jesus, eu acredito que o Senhor é verdadeiramente o meu Salvador e que tem uma herança para mim. Mas reconheço que tenho confiado em minha própria força para entrar nela. Eu me arrependo! Renuncio à minha independência e submeto-me sem reservas à Sua autoridade. De agora em diante, dependerei de Sua graça que me é mais do que suficiente.

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