Fé como Fruto

Derek Prince
Published: 2007
Last Updated: அக்டோபர் 2026
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Os dons espirituais expressam capacidade, mas os frutos espirituais revelam caráter. Nesta carta de ensino, a fé é apresentada como uma confiança crescente em Deus e uma atitude de lealdade para com os outros, enraizada na fidelidade de Deus.
Na minha carta anterior, examinamos os nove dons do espírito listados por Paulo em 1 Coríntios 12:8–10. Agora vamos ver as nove formas de fruto espiritual que Paulo nos fornece em Gálatas 5:22–23:
“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.”
Por ordem, nessa lista, a sétima forma de fruto é a fé. Versões recentes oferecem uma variedade de traduções, como “lealdade”, “fidelidade” ou “confiança”. No entanto, o substantivo grego que Paulo usa é “pistis”, que é a palavra básica usada para o termo fé em todo o Novo Testamento.
Frutos vs. Dons
Uma maneira de destacar a diferença é imaginar uma árvore de Natal e uma macieira. Uma árvore de Natal traz dons (presentes); uma macieira dá frutos. Um dom (um presente) é preso e removido de uma árvore de Natal num ato único e breve. Não há relação direta entre a árvore e o dom (o presente): um pode ser uma vestimenta, o outro um livro ou qualquer outra coisa. O dom (o presente) não nos diz nada sobre a natureza da árvore da qual foi retirado.
Por outro lado, existe uma ligação direta entre uma maçã e a árvore que a produz. A natureza da árvore determina a natureza do fruto - tanto quanto à sua espécie quanto à sua qualidade. Uma macieira nunca pode dar uma laranja. Uma árvore saudável nunca dará maus frutos (ver Mateus 7:17–20). O fruto da macieira não é produzido em um único ato, mas é o resultado de um processo constante e contínuo de crescimento e desenvolvimento. Para produzir os melhores frutos, a árvore deve ser cuidadosamente cultivada. Isso requer tempo, habilidade e trabalho.
Vamos aplicar essa simples analogia ao reino espiritual. Um dom espiritual é transmitido e recebido por uma única e breve transação. Não nos diz nada sobre a natureza da pessoa que o exerce. Por outro lado, o fruto espiritual expressa a natureza da vida da qual procede; vem apenas como resultado de um processo de crescimento. Para obter o melhor fruto, uma vida deve ser cuidadosamente cultivada - com tempo, habilidade e trabalho.
Podemos expressar a diferença de outra maneira, dizendo que dons expressam habilidade, frutos expressam caráter.
O que é mais importante? A longo prazo, sem dúvida, o caráter é mais importante do que a habilidade. O exercício dos dons é temporário. Como Paulo explica em 1 Coríntios 13:8–13, chegará um momento em que os dons não serão mais necessários. Mas o caráter é permanente. O caráter que desenvolvemos nesta vida determinará o que seremos por toda a eternidade. Um dia deixaremos nossos dons para trás; nosso caráter permanecerá para sempre.
No entanto, não precisamos escolher um em detrimento do outro. Os dons não excluem os frutos; os frutos não excluem os dons. Em vez disso, eles se complementam. Os dons deveriam fornecer expressões práticas para o caráter, assim como fizeram com Jesus. Seu caráter amoroso e gracioso era expresso através dos dons espirituais. Somente por meio dos dons Ele poderia atender às necessidades das pessoas para quem Ele viera, revelando plenamente para eles a natureza de Seu Pai celestial, o qual Ele tinha vindo representar (ver João 14:9–11).
Devemos procurar seguir o padrão de Cristo. Quanto mais desenvolvermos os atributos que caracterizavam Jesus — amor, preocupação e compaixão — mais precisaremos dos mesmos dons que Ele exerceu para pôr em prática esses atributos. Quanto mais estivermos equipados com esses dons, maior será nossa capacidade de glorificar a Deus, nosso Pai, assim como Jesus fez.
Os frutos, então, expressam o caráter. Quando todas as nove formas de fruto espiritual estão presentes e totalmente desenvolvidas, elas representam a totalidade do caráter cristão, cada forma de fruto satisfaz uma necessidade específica e cada uma complementa as demais. Dentro desta totalidade, o fruto da fé pode ser visto de dois aspectos que correspondem a dois usos diferentes, mas relacionados, da palavra grega “pistis”. A primeira é a confiança; o segundo é a fidedignidade (digno ou merecedor de confiança).
Fé como Confiança
O primeiro aspecto da fé como fruto é a confiança. Algumas Bíblias traduzem "pistis" como “confiança”. Muitas vezes, Jesus enfatizava que um dos requisitos para entrar no Reino de Deus é se tornar como criancinhas (ver Mateus 18:1–4; 19:13–14; Marcos 10:13–16; Lucas 18 :15–17). Provavelmente não há qualidade mais característica da infância do que a confiança. Contudo, é uma qualidade que é vista em sua perfeição nos homens de Deus mais maduros — homens como Abraão, Moisés, Davi e Paulo. Podemos concluir, portanto, que quanto mais cultivarmos essa confiança, maior maturidade espiritual teremos.
Neste aspecto, o fruto da fé pode ser definido como uma confiança tranquila, constante e inabalável na bondade, sabedoria e fidelidade de Deus. Não importa quais provações ou aparentes desastres aconteçam, a pessoa que cultivou essa forma de fruto permanece calma e tranquila em meio a tudo isso. Ela tem uma confiança inabalável de que Deus ainda está no controle total de todas as situações e que, em todas as circunstâncias, Deus está realizando o Seu propósito de abençoar cada um de Seus filhos.
A expressão externa desse tipo de confiança é a estabilidade. Isso é lindamente retratado por Davi no Salmo 125:1:
“Os que confiam no SENHOR serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.”
Todas as montanhas da Terra podem se abalar e tremer e até mesmo ser totalmente removidas - exceto uma. Sião nunca será abalada. Deus a escolheu para Sua própria morada, e somente ela permanecerá para sempre.
Assim é com o crente que aprendeu a confiar. Outros ao seu redor podem entrar em pânico e confusão, mas ele permanece calmo e seguro.
“O seu fundamento está nos montes santos.” (Salmo 87:1)
Devemos ter certeza de que nossa alma está segura nas mãos do Senhor. A chave para esse tipo de confiança é a entrega. Primeiro, entregamos pessoalmente a nossa vida nas mãos de Jesus Cristo. Então, na hora da prova — talvez no próprio limiar da eternidade — não precisamos fazer mais nenhuma entrega. Precisamos apenas descansar na entrega que assumimos anteriormente - uma entrega de vida e morte, tempo e eternidade
No Salmo 37:5 Davi diz:
“Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nEle, e Ele o fará.”
Literalmente falando, o versículo diz: "e Ele está fazendo isso." Duas coisas são exigidas aqui de nós. O primeiro é o ato de “entrega”. A segunda é uma atitude, “confia”. Esse ato de entrega leva à atitude de confiança. Enquanto continuarmos nessa atitude de confiança, Davi nos assegura, Deus “está fazendo isso”, Ele já está realizando aquilo que você entregou em Suas mãos.
Entregar uma coisa ao Senhor é como levar dinheiro ao banco e depositá-lo em nossa conta. Depois de recebermos o recibo do nosso depósito, não precisamos mais nos preocupar com a segurança do nosso dinheiro. Agora é responsabilidade do banco. É engraçado como algumas pessoas confiam plenamente em um banco para cuidar de seu dinheiro, mas acham difícil confiar em Deus para algo muito importante na sua vida.
O exemplo do depósito bancário ilustra um fator importante para fazer o ato de entrega ser bem-sucedido. Quando saímos do banco, levamos um recibo oficial, indicando a data, o local e o valor do depósito. Não há incertezas. Precisamos ser igualmente específicos em relação às coisas que entregamos a Deus. Precisamos saber, sem sombra de dúvida, o que entregamos e quando e onde a entrega foi feita. Também precisamos do “recibo” oficial do Espírito Santo reconhecendo que Deus aceitou a nossa entrega.
A Confiança Deve Ser Cultivada
A confiança é como todo tipo de fruto: precisa ser cultivada e passar por vários estágios de desenvolvimento antes de atingir a plena maturidade. As palavras de Davi no Salmo 62 ilustram bem o desenvolvimento da confiança: “Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa; não serei grandemente abalado.” (versículo 2). Mas depois de fazer exatamente a mesma declaração de confiança em Deus, ele diz: “Não serei abalado” (versículo 6). Entre os versículos 2 e 6, Davi progrediu de não ser “grandemente abalado” para não ser abalado de forma alguma.
Precisamos ser tão honestos sobre nós mesmos quanto David foi. Antes que nossa confiança chegue à maturidade, o melhor que podemos dizer é: “Não serei grandemente abalado!” Nesta fase, problemas e oposição nos abalarão, mas não nos derrubarão. No entanto, se continuarmos a cultivar nossa confiança, chegaremos ao estágio em que poderemos dizer: “Não serei abalado” — ponto final! Nada será capaz de nos abalar, muito menos nos derrubar.
Uma confiança desse tipo está no reino do espírito, e não no das emoções. Podemos recorrer mais uma vez ao testemunho pessoal de Davi para ilustrar esse ponto. Ele diz ao Senhor: “Em qualquer tempo em que eu temer, confiarei em ti.” (Salmos 56:3). Aqui, David reconhece duas influências conflitantes em ação ao mesmo tempo dentro dele: confiança e medo. O medo é superficial, está na esfera das emoções; a confiança é mais profunda, está na esfera do espírito.
A confiança madura é como um rio profundo e forte, abrindo caminho irresistível para o mar. Às vezes, os ventos do medo ou da dúvida podem soprar contra o curso do rio e criar ondas espumantes em sua superfície. Mas esses ventos e ondas não podem alterar ou impedir o fluxo profundo e contínuo das águas abaixo da superfície, pois seguem o caminho que lhes é traçado pelo leito do rio até findar no mar.
A confiança em sua plena maturidade é lindamente exemplificada pelas palavras de Paulo em 2 Timóteo 1:12:
“Por essa causa, também sofro, todavia não me envergonho, porquanto sei em quem tenho crido e estou plenamente convicto de que Ele é poderoso para guardar o que lhe confiei até aquele Dia.”
Pelos padrões do mundo, nesta fase, Paulo era um fracasso. Alguns de seus amigos e apoiadores mais influentes se voltaram contra ele. De todos os seus colegas de trabalho, apenas Lucas permaneceu com ele. Demas o havia abandonado e voltado para o mundo. Paulo estava enfermo e idoso, prisioneiro algemado em uma prisão romana, aguardando injusto julgamento e execução pelas mãos de um déspota cruel e depravado. No entanto, suas palavras soam com uma confiança serena e inabalável. Além do horizonte do tempo, ele aguarda um dia sem nuvens — “aquele dia” em que o justo Juiz lhe concederá “a coroa da justiça” (2 Timóteo 4:8).
Tanto para Paulo, como para David, a confiança era o resultado de um ato de entrega. É expresso em suas próprias palavras: “Ele é poderoso para guardar o que Lhe confiei”. “Confiar” foi o resultado da “entrega, do compromisso”. Anos antes, Paulo havia se entregado ao Senhor e feito um compromisso irrevogável com Cristo. Provações e sofrimentos subsequentes gradualmente trouxeram à tona uma confiança cada vez mais profunda que agora, numa masmorra romana, havia se concretizado plenamente com um esplendor ainda mais brilhante do que nunca. Que imenso contraste era aquela masmorra sombria com o brilho radiante de Paulo!
Fé Como Fidedignidade
Voltamos agora para o segundo aspecto da fé como fruto: fidedignidade ou qualidade de quem é digno de confiança. Linguisticamente, fidedignidade é de fato o significado original de "pistis". No léxico padrão de Arndt e Gingrich do grego do Novo Testamento, a primeira definição específica dada de "pistis" é: “fidelidade, credibilidade”. Se voltarmos ao Antigo Testamento, o mesmo se aplica à palavra hebraica para fé, “emunah". Seu significado primário é “fidelidade”; seu significado secundário é “fé”. O verbo do qual é derivado nos dá a palavra “Amém” — “Assim seja” ou “Que seja confirmado.”
Ambos os significados vão acabar convergindo na pessoa e na natureza do próprio Deus. Se enxergamos a fé como confiança é, única e exclusivamente, pelo fato de que Deus é digno e merecedor de confiança. Se vemos fé como fidedignidade, é somente por meio de nossa confiança que o Espírito Santo é capaz de passar para nós a fidedignidade de Deus. O próprio Deus é o começo e o fim da fé. Sua fidedignidade é a única base para nossa confiança: a confiança que depositamos nEle reproduz em nós a Sua fidedignidade e, assim, nós também podemos ser dignos de confiança.
Provavelmente nenhum atributo de Deus é mais persistentemente enfatizado nas Escrituras do que Sua fidedignidade. No Antigo Testamento, há uma palavra hebraica especial reservada para esse atributo: “chesed", que é traduzida de várias maneiras por “bondade”, “benignidade”, “amor” ou “misericórdia”. No entanto, nenhuma dessas traduções expressa totalmente seu significado.
Existem duas características distintivas do termo “chesed” de Deus. Primeiro, é a expressão da graça de Deus, uma graça que não merecemos e que não requer nada em troca. Vai além de qualquer coisa que o homem possa merecer ou exigir como direito. Em segundo lugar, é sempre baseado numa aliança em que Deus participa voluntariamente. Podemos combinar essas duas características dizendo que “chesed” é a fidedignidade de Deus em cumprir os compromissos da aliança que fez conosco, que vão além de qualquer coisa que possamos merecer ou exigir.
Encontramos assim uma estreita ligação entre três importantes conceitos hebraicos: emunah, fé ou fidelidade; chesed, a fidedignidade de Deus; berith, uma aliança. Este é o tema recorrente neste salmo:
“E a minha fidelidade [emunah] e a minha benignidade [chesed] estarão com ele (...) A minha benignidade [chesed] lhe conservarei eu para sempre, e a minha aliança [berith] lhe será firme [amém]. Mas não retirarei totalmente dele a minha benignidade [chesed], nem faltarei à minha fidelidade [emunah]. Não quebrarei a minha aliança [berith], não alterarei o que saiu dos meus lábios.” (Salmo 89:24, 28, 33–34)
O último versículo traz uma relação especial entre a fidedignidade de Deus e as palavras de Sua boca. Há duas coisas que Deus nunca fará: quebrar Sua aliança e voltar atrás no que Ele disse. A fidedignidade de Deus, transmitida através do Espírito Santo, reproduzirá as mesmas características em nós. Isso nos tornará pessoas de integridade e honestidade infalíveis.
Já vimos que o “chesed” de Deus, expresso em Seus compromissos da aliança que fez conosco, é baseado em Sua graça, indo além de qualquer coisa que nós, que somos seus destinatários, possamos merecer ou exigir. Isso também se refletirá nos relacionamentos de aliança com outros irmãos da fé. Não nos limitaremos a meras exigências de justiça ou a alguma forma legal de contrato. Estaremos prontos para assumir o compromisso total que Deus fez ao estabelecer Sua aliança conosco e darmos nossas vidas uns pelos outros. “Nisto conhecemos o amor: que ele deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (1 João 3:16). É pela entrega de nossas vidas que entramos em um relacionamento de aliança total com Deus e uns com os outros.
As escrituras pintam um quadro assustador do colapso dos padrões morais e éticos que marcarão o fim desta era atual (ver 2 Timóteo 3:1–4). À medida que o mundo mergulha cada vez mais nas trevas, o povo de Deus deve - em contraste - estar mais determinado do que nunca a andar na luz da comunhão uns com os outros. Devemos nos mostrar dispostos e qualificados para entrar e manter os relacionamentos de aliança dos quais depende a comunhão uns com os outros. Para isso, precisaremos cultivar o fruto da fidedignidade até ao ponto de plena maturidade.
Resumo
O fruto espiritual difere dos dons espirituais de duas maneiras principais. Primeiro, um dom espiritual pode ser transmitido e recebido por meio de uma única e breve transação; o fruto deve ser cultivado por um processo contínuo, que requer tempo, habilidade e trabalho. Em segundo lugar, os dons não estão diretamente relacionados ao caráter de quem os exerce, enquanto o fruto é uma expressão de caráter. Idealmente, frutos e dons devem se equilibrar em uma combinação que glorifique a Deus e sirva à humanidade.
Como forma de fruto, a fé pode ser entendida de duas formas distintas: como confiança e como fidedignidade. A confiança faz com que nos sintamos estáveis, essa estabilidade aumenta à medida que a confiança amadurece. Confiar requer um ato inicial de entrega. Baseamos nossa confiança na fidedignidade de Deus. Deus demonstra Sua fidedignidade cumprindo os compromissos da aliança que fez conosco, que estão além de qualquer coisa que possamos merecer ou exigir. Por sua vez, isso nos torna o tipo de pessoa que deseja e é capaz de entrar numa aliança e manter seus compromissos, tanto com Deus quanto uns com os outros.

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