Eis Aqui o Homem

Derek Prince
Published: 2008
Last Updated: October 2026
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Jesus Cristo é totalmente Deus e totalmente homem, permanecendo sem pecado ao mesmo tempo em que compartilha das fraquezas e tentações da humanidade. Sua obediência ao Pai revela o modelo a ser seguido pelos filhos de Deus, colocando a vontade de Deus acima de qualquer outra exigência.
O que todo homem deveria ser, mas nenhum outro jamais foi.
“Saiu, pois, Jesus fora, levando a coroa de espinhos e roupa de púrpura. E disse-lhes Pilatos: Eis aqui o homem.” (João 19:5)
Será que Pilatos percebeu, enquanto falava essas palavras, que estava citando e cumprindo a profecia de Zacarias 6:12, “Eis aqui o homem”? É mais certo dizer que não! No entanto, as palavras de Zacarias se referem tão diretamente a Jesus quanto as de Pilatos quando ele O apresentou à multidão.
A palavra grega usada por Pilatos significa “homem” como um membro da raça humana, sem nenhuma referência específica ao sexo. Mas a palavra hebraica usada por Zacarias significa “homem” no sentido de um indivíduo especificamente do sexo masculino, e não do feminino. Ambos os significados se aplicam a Jesus. Ele é a personificação perfeita de ambos: humanidade e masculinidade. Ele é o que todo homem deveria ser, mas nenhum outro jamais foi.
A encarnação de Deus como homem na pessoa de Jesus foi predita pelos profetas do Antigo Testamento. Isaías declarou: “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” (Isaías 7:14). Em Mateus 1:23, o nome hebraico Emanuel é traduzido como “Deus conosco”. A “Raça de Emanuel” é a raça “Deus-Homem”, que une em uma só as duas naturezas: a de Deus e a do homem.
Filho do Homem
O título que Jesus aplicou mais do que tudo a Si mesmo foi "Filho do Homem”. Isso corresponde à frase hebraica “ben Adam", que significa literalmente “Filho de Adão”. Assim, identifica Jesus especificamente como um membro da raça de Adão. Em harmonia com isso, Paulo o chama de “o último Adão” (1 Coríntios 15:45).
A verdadeira humanidade de Jesus é igualmente enfatizada em todo o restante do Novo Testamento. Por exemplo, o escritor de Hebreus diz a respeito Dele: “E já que os filhos são participantes da carne e do sangue, ele também participou das mesmas coisas, porque, na verdade, ele não assumiu a natureza dos anjos, mas ele tomou a semente de Abraão" (Hebreus 2:14, 16 KJF). Jesus era um descendente direto de Abraão - e, portanto, também de Adão. Ele não assumiu a natureza angelical, mas assumiu a verdadeira natureza humana.
A genealogia de Jesus em cada Evangelho está em harmonia com a apresentação particular Dele. Mateus o remonta a Abraão, enfatizando sua identidade com Israel (Mateus 1:1–17). Lucas o remonta a Adão, enfatizando sua identidade com toda a raça humana (Lucas 3:23–38). João O apresenta sem qualquer genealogia humana, como o Verbo eterno, coexistente com Deus (João 1:1–2). Marcos também não lhe dá genealogia, mas por uma razão diferente: de acordo com o antigo costume, um servo (ou escravo) não precisava de genealogia.
Apesar de se tornar totalmente humano por encarnação, Jesus nunca deixou de ser divino. Em Jesus, Deus e o homem foram totalmente fundidos.
Duas Naturezas em Equilíbrio
As duas naturezas de Deus e do homem em Jesus são apresentadas lado a lado em várias passagens dos Evangelhos. Em João 4:5–14 lemos como Jesus, em forma de Homem, estava fisicamente cansado e sentou-se junto ao poço de Jacó. No entanto, um pouco mais tarde, Ele falou em forma de Deus à mulher samaritana: “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna”. Por essas palavras, Jesus se identificou na forma do Deus de Israel, a respeito de quem o salmista havia dito: “Pois em ti está a fonte da vida” (Salmo 36:9 NVI).
À beira do Mar da Galileia foi em forma de Deus que Jesus recebeu a adoração de Pedro, caindo de joelhos e chorando:
“E vendo isto Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador!” (Lucas 5:8)
Mas mais tarde, no mesmo Mar da Galileia, foi em forma de Homem que Jesus adormeceu no barco e teve de ser acordado pelos Seus discípulos (Lucas 8:23–24).
Em Êxodo 3:13–14, o Senhor revelou a Moisés Seu nome divino e imutável, “EU SOU”. Quinze séculos depois, no Jardim do Getsêmani, identificando-se com aqueles que vieram prendê-lo, Jesus pronunciou as mesmas palavras: “Sou Eu” (João 18:8). Quando esse nome sagrado foi pronunciado por Aquele a quem realmente pertencia, foi carregado com tal poder divino que todos aqueles que vieram contra Jesus “recuaram e caíram por terra” (João 18:5–6). Este foi o testemunho de Sua divindade imutável. No entanto, daquele ponto em diante, foi em forma de Homem que Jesus suportou a vergonha e a agonia de Seu julgamento, açoitamento e crucificação.
O Filho Modelo
Em Efésios 1:5, Paulo diz de todos os crentes que Deus “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”. Em Romanos 8:29 ele descreve ainda mais o propósito de Deus para Seus filhos:
“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele [Jesus] seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Assim, Jesus é o Filho cujo modelo ou padrão deve ser seguido — todos nós devemos ser feitos conforme a Ele para chegar à perfeição ou à maturidade. Ele mesmo é o “caminho novo e vivo” pelo qual “prosseguimos para a perfeição”, “entramos no Santuário da casa de Deus” e “nos achegamos” a Deus (ver Hebreus 6:1; 10:19–22). O caminho que levou Jesus à perfeição é o mesmo que cada um de nós deve seguir.
O caminho para a maturidade não foi mais fácil para Jesus do que para nós. Ele “como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). Em Sua natureza humana, Jesus experimentou todas as formas de tentação que qualquer um de nós experimenta - e ainda assim Ele nunca foi levado a pecar. Quão importante é para nós percebermos que não é pecado ser tentado! O pecado vem apenas quando cedemos à tentação.
O que permitiu que Jesus, apesar de Sua verdadeira humanidade, vencesse todas as tentações? A base de Seu sucesso está em Sua motivação sincera e imutável: fazer a vontade do Pai. Isso foi predito profeticamente por Davi no Salmo 40:7–8: “Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro, [a respeito] de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (compare com Hebreus 10:7).
Durante Seu ministério na terra, Jesus repetidamente revelou isso como o motivo principal de tudo o que Ele fez. Ele nunca iria conseguir ter a satisfação total e final até que tivesse terminado cada tarefa que Seu Pai Lhe havia designado. Junto ao poço de Jacó, Ele disse a Seus discípulos: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (João 4:34). Em outros discursos posteriores, Ele reafirmou isso duas vezes: “Porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (João 5:30); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 6:38).
Em Sua grande oração sacerdotal no final de Seu ministério terreno, Jesus foi capaz de dizer ao Pai:” Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste” (João 17:4). Finalmente, nos últimos momentos de Sua agonia na cruz, Ele soltou aquele grande e triunfante clamor: “Está consumado!” (João 19:30). Sem vacilar e à custa da própria vida, Ele havia concluído a tarefa que o Pai Lhe havia designado. Com essa certeza, Ele entregou Seu espírito nas mãos do Pai (Lucas 23:46).
A mesma motivação que manteve Jesus longe do pecado e o conduziu até a vitória completa fará o mesmo por nós. Devemos chegar ao ponto de uma determinação sincera de que o propósito supremo de nossas vidas, como filhos de Deus, é fazer a vontade de nosso Pai celestial. Quando todos os outros desejos ou ambições pessoais estão sujeitos a esse motivo único e primordial, ainda podemos vacilar ou tropeçar às vezes, mas o pecado nunca conseguirá recuperar o domínio sobre nós e a vitória final será nossa.
Conflito entre Retidão e Lealdade
Em Isaías 11:5, o profeta apresenta dois aspectos inter-relacionados do caráter de Jesus: “A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade o cinto dos seus rins.” Justiça é uma atitude correta para com Deus; fidelidade (ou lealdade) é uma atitude correta para com o homem. A ordem é importante. A retidão ou justiça vem antes da lealdade. Nosso dever para com Deus é primordial. Não somos livres para assumir qualquer tipo de compromisso com o homem que interfira em nossas obrigações para com Deus. Mas, uma vez que as reivindicações de Deus tenham recebido o devido reconhecimento, a lealdade exige que observemos todas as obrigações e compromissos para com o homem.
Há sempre o potencial de conflito em reconciliar retidão com lealdade - isto é, em ajustar corretamente as reivindicações de Deus e as reivindicações do homem. A vida e os ensinamentos de Jesus nos fornecem vários exemplos de como lidar com esse conflito.
Ao interpretar a lei de Moisés, Jesus estabeleceu os dois grandes mandamentos básicos em sua ordem correta: primeiro, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração”, segundo, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:36–40). Sua própria vida exemplificou ambas as formas de amor em sua perfeição, mas sempre em sua devida ordem de prioridade.
No único incidente da infância de Jesus registrado no Novo Testamento, o conflito entre essas duas obrigações aparece pela primeira vez. Aos doze anos de idade, Ele foi levado por José e Maria a Jerusalém para a Páscoa, mas permaneceu no templo depois que o restante de Seu grupo partiu em sua jornada de volta a Nazaré. Por fim, José e Maria voltaram a Jerusalém e o encontraram “assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os” (Lucas 2:42–46).
Maria disse-lhe: “Eis que teu pai [José] e eu ansiosos te procurávamos. E ele [Jesus] lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (Lucas 2:48–49). Observe a dupla aplicação da palavra pai nesses versículos, trazendo à tona a dupla obrigação para com Deus e para com o homem. Na verdade, Jesus estava dizendo: “As reivindicações de meu Pai celestial têm precedência sobre as daquele que é conhecido como meu pai na terra”. No entanto, o registro continua: “E desceu com eles [José e Maria] e veio a Nazaré, e era-lhes sujeito” (Lucas 2:51). Uma vez que Jesus cumpriu Suas obrigações para com Seu Pai celestial, Ele também foi fiel em todos os deveres para com José como Seu pai terreno. Ele era em todos os aspectos o filho modelo, combinando retidão para com Deus com lealdade para com José.
Mais tarde, quando Jesus entrou em Seu ministério público, Sua mãe e Seus irmãos procuraram-no para falar com Ele, mas “Estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” (Mateus 12:46–50). Aqui, novamente, há um delicado ajuste de prioridades. A relação espiritual dos discípulos com Deus Pai, produzida por sua obediência, prevalecia sobre a relação puramente natural com sua mãe e seus irmãos (que não eram discípulos naquela época).
No entanto, na cruz, um dos últimos atos de Jesus foi entregar Sua mãe aos cuidados de Seu amado discípulo, João, dando-lhe assim um filho para cuidar dela após Sua morte. (Ver João 19:25–27.) Ao providenciar de tal forma para a Sua mãe, Ele cumpriu fielmente a última de Suas obrigações humanas.
Ainda e Para Sempre Homem!
É realmente maravilhoso que, pela encarnação, Jesus tenha se tornado verdadeira e plenamente homem. Mas a maior maravilha de todas é esta: Ele nunca mais deixou de ser um Homem! Embora reconheçam a realidade da encarnação, muitos cristãos ficam com a impressão de que Jesus foi Homem apenas pelo breve período de trinta e três anos, e agora já não é mais um Homem. Mas o Novo Testamento ensina o contrário.
Ao escrever depois de trinta anos da ascensão de Jesus, Paulo disse a Timóteo: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem” (1 Timóteo 2:5). Tudo o que Paulo disse aqui está no tempo presente. Jesus ainda é Homem. Há um Homem entronizado à direita de Deus, a quem foi concedida toda a autoridade no céu e na terra, e a quem estão sujeitos todos os anjos, principados e potestades (ver Mateus 28:18, Efésios 1:20–21, 1 Pedro 3:22).
Vendo com visão profética este mistério do Deus-Homem exaltado à direita de Deus, o salmista Davi clama maravilhado:
"Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos e o coroaste com glória e com honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste”. (Salmo 8:4–6)
Ao contemplar o mistério de Jesus, o Deus-Homem exaltado à direita de Deus, quem pode oferecer uma resposta completa ou final à pergunta: “Que é o homem”?

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