Sal da Terra

Derek Prince
Published: 2009
Last Updated: October 2026
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Os discípulos de Cristo são chamados a preservar um mundo em decadência e a entregá-lo à misericórdia de Deus. Derek Prince recorre à intercessão de Abraão por Sodoma para mostrar por que Deus distingue os justos dos ímpios no julgamento. O Espírito Santo, presente na Igreja, restringe a iniquidade, chamando os crentes a permanecerem firmes, em vez de cederem à passividade.
“Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13). Nesta declaração, Jesus não está falando apenas para Seus discípulos, mas para todos nós que reconhecemos a autoridade de Seu ensino. Jesus compara nossa função na terra à do sal. Seu significado fica claro quando consideramos dois usos familiares do sal em relação à comida: o sal dá sabor e o sal restringe a degeneração.
O Sal Dá Sabor
Como cristãos, nossa função, igual ao sal, é dar sabor à terra. Esse sabor é agradável a Deus. Alimentos pouco apetitosos tornam-se saborosos e aceitáveis quando temperados com sal. Jó faz esta pergunta retórica:
"Come-se sem sal uma comida insípida?" (Jó 6:6 NVI)
A presença do sal faz a diferença, fazendo com que desfrutemos de alimentos que de outra forma nos recusaríamos a comer.
Nossa presença torna a terra aceitável a Deus e faz com que Ele aja em misericórdia. Por estarmos aqui, Deus continua a lidar com a terra através da graça e da misericórdia ao invés de ira e julgamento. Nossa presença faz a diferença.
Esse princípio é vividamente ilustrado no relato da intercessão de Abraão em favor de Sodoma, conforme registrado em Gênesis 18:16–33. O Senhor disse a Abraão que desceria até Sodoma para ver se a iniquidade daquela cidade havia chegado a um ponto em que o julgamento não poderia ser retido por mais tempo. Abraão, então, argumentou com o Senhor sobre a situação.
Um Princípio de Julgamento
Abraão primeiro estabeleceu um princípio que foi a base para o que se seguiu: nunca é a vontade de Deus que o julgamento devido aos ímpios recaia sobre os justos. “Destruirás também o justo com o ímpio?” Abraão perguntou (versículo 23). “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (versículo 25).
O Senhor deixa claro na conversa que se segue que Ele aceita o princípio declarado por Abraão. Quão importante é que todos os crentes entendam isso! Se tivermos sido justificados pela fé em Cristo e estivermos levando uma vida que expressa verdadeiramente nossa fé, então nunca é a vontade de Deus que sejamos incluídos nos julgamentos que Ele traz sobre os iníquos.
Dois Fatores de Definição
Infelizmente, os cristãos muitas vezes não entendem isso. Por quê? Porque eles falham em distinguir entre duas situações que externamente podem parecer semelhantes, mas que na realidade são completamente diferentes em natureza e causa. Por um lado, há perseguição por causa da justiça. Por outro lado, há o julgamento de Deus sobre os ímpios.
A diferença entre essas duas situações é evidenciada pelas seguintes declarações contrastantes. A perseguição vem dos ímpios sobre os justos. Mas o julgamento vem de Deus, que é justo, sobre os ímpios. Assim, a perseguição pela justiça e o julgamento pela maldade são opostos em sua origem, propósito e resultado.
A Bíblia adverte claramente que os cristãos devem esperar sofrer perseguição. No Sermão da Montanha, Jesus disse aos Seus discípulos:
“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.” (Mateus 5:10–11)
Paulo escreve da mesma forma a Timóteo:
“E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições.” (2 Timóteo 3:12)
Os cristãos devem, portanto, estar preparados para suportar a perseguição à sua fé e ao seu modo de vida, e devem até mesmo considerar isso um privilégio.
Da mesma forma, os cristãos nunca devem ser incluídos nos julgamentos de Deus sobre os ímpios. Este princípio é afirmado muitas vezes nas Escrituras. Em 1 Coríntios 11:32, Paulo escreve a seus companheiros crentes e diz: “Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.” Isso demonstra que há uma diferença entre o trato de Deus com os crentes e o Seu trato com o mundo. Como crentes, podemos esperar experimentar o castigo de Deus. Se nos submetermos à correção e colocarmos nossas vidas em ordem, não estaremos sujeitos aos julgamentos que virão sobre os incrédulos ou sobre o mundo em geral. Todo o propósito de Deus ao castigar um crente é preservá-lo de passar por Seus julgamentos sobre os incrédulos.
Os capítulos 7 a 12 de Êxodo registram como Deus trouxe dez julgamentos cada vez mais severos sobre os egípcios porque eles se recusavam a ouvir Seus profetas, Moisés e Arão. Durante todo o tempo, o povo de Deus, Israel, mesmo habitando ali no meio do Egito, não foi tocado por nenhum desses dez julgamentos. Em Êxodo 11:7, o motivo é graficamente declarado:
“Mas entre todos os filhos de Israel nem mesmo um cão moverá a sua língua, desde os homens até aos animais, para que saibais que o Senhor fez diferença entre os egípcios e os israelitas.”
O julgamento não veio sobre Israel porque o Senhor “fez diferença” entre Seu próprio povo e o povo do Egito. Até os cachorros do Egito tiveram que reconhecer essa diferença! E a diferença é válida até hoje.
Quantas São Necessárias?
Continuando sua conversa com o Senhor sobre Sodoma, Abraão tentou determinar o número mínimo de pessoas justas necessárias para preservar a cidade do julgamento. Começou com cinquenta. Então, com uma notável combinação de reverência e perseverança, ele desceu para dez. O Senhor finalmente assegurou a Abraão que se Ele encontrasse apenas dez pessoas justas em Sodoma, Ele pouparia a cidade inteira por causa daquelas dez.
Qual era a população de Sodoma? Seria difícil chegar a uma estimativa exata. No entanto, existem números disponíveis para algumas outras cidades da antiga Palestina que fornecem um padrão de comparação. Levando em conta essas outras cidades, poderíamos dizer que a população de Sodoma nos dias de Abraão provavelmente não era inferior a dez mil.
Deus assegurou a Abraão que dez pessoas justas poderiam preservar uma cidade de pelo menos dez mil. Isso dá uma proporção de um para mil. A mesma proporção de “um entre mil” é dada em Jó 33:23 e em Eclesiastes 7:28, e ambas as passagens sugerem que esse um entre mil é uma pessoa de retidão notável, enquanto todas as demais estão abaixo dos padrões de Deus.
Essa proporção pode se estender de forma ilimitada. A presença de dez pessoas justas pode preservar uma comunidade de dez mil. A presença de cem pessoas justas pode preservar uma comunidade de cem mil. A presença de mil pessoas justas pode preservar uma comunidade de um milhão. Quantas pessoas justas são necessárias para preservar uma nação tão grande quanto os Estados Unidos, com sua população estimada em pouco mais de 300 milhões? Cerca de 300 mil pessoas.
Esses números são muito expressivos. Será que as Escrituras nos dão motivos para acreditar que, por exemplo, pouco mais de um quarto de milhão de pessoas verdadeiramente justas, espalhadas como grãos de sal pelos Estados Unidos, seriam suficientes para preservar toda a nação do julgamento de Deus e garantir que ele continuasse a ter graça e misericórdia? Seria tolice afirmar que tais estimativas são exatas. No entanto, a Bíblia estabelece definitivamente o princípio geral de que a presença de crentes justos é o fator decisivo no trato de Deus com uma comunidade.
Isso nos leva ao segundo efeito da presença dos cristãos como “o sal da terra”.
O Sal Restringe a Degeneração
Antes da invenção do refrigerador, os marinheiros que levavam carne em suas longas viagens usavam o sal como conservante. O processo de degeneração já estava em ação antes que a carne fosse salgada. O sal não detinha a degeneração, mas era o suficiente para preservar a carne durante a viagem, assim, os marinheiros podiam comer desse alimento por muito mais tempo do que fariam caso ela não tivesse sido salgada.
Nossa presença na terra como discípulos de Cristo funciona como o sal na carne. O processo de degeneração do pecado já está em operação. Isso se manifesta em todas as áreas da vida humana — moral, religiosa, social, política. Não podemos extinguir a degeneração que já está presente. Mas podemos controlá-la por tempo suficiente para que os propósitos da graça e misericórdia de Deus sejam totalmente cumpridos. Então, quando nossa influência não for mais sentida, a degeneração atingirá seu clímax e o resultado será a degradação total.
Esta ilustração do poder do sal para restringir a degeneração explica o ensinamento de Paulo em 2 Tessalonicenses 2:3–12. Paulo adverte que a maldade humana chegará ao seu clímax na pessoa de um governante mundial com poder sobrenatural e dirigido pelo próprio Satanás. Paulo chama esse governante de “o homem do pecado [ou iníquo]” e “o filho da perdição” (versículo 3). Em 1 João 2:18 ele é chamado de “Anticristo” e em Apocalipse 13:4 ele é chamado de “a besta”. Esse governante realmente alegará ser Deus e exigirá adoração universal.
O surgimento desse governante satânico é inevitável. Paulo diz com certeza: “Então será revelado o iníquo” (2 Tessalonicenses 2:8). Paulo também declara no mesmo versículo que o próprio Cristo verdadeiro será aquele que administrará o julgamento final sobre esse falso Cristo — “a quem o Senhor desfará pelo assopro [ou espírito] da Sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda.”
Infelizmente, alguns pregadores têm usado esse ensinamento sobre o Anticristo para instilar nos cristãos atitudes de passividade e fatalismo. “O Anticristo está vindo”, eles dizem. “As coisas estão cada vez piores. Não há nada que possamos fazer a respeito.” Como resultado, os cristãos muitas vezes sentam-se com as mãos cruzadas em piedoso desânimo enquanto observam a devastação de Satanás prosseguindo sem controle, ao seu redor.
As atitudes de passividade e fatalismo são tão trágicas quanto antibíblicas. É verdade que o Anticristo deve surgir, uma hora ou outra. Mas está longe de ser verdade que não há nada a ser feito a este respeito enquanto isso.
A Força Restritiva
Até o presente momento, há uma força em ação no mundo que desafia, resiste e restringe o espírito do anticristo.
Esse poder restritivo, que atualmente impede o surgimento completo e final do Anticristo, é a presença pessoal do Espírito Santo dentro da Igreja. Isso fica claro à medida que seguimos o desdobramento da revelação das Escrituras sobre a Pessoa e a obra do Espírito Santo.
Bem no início da Bíblia, em Gênesis 1:2, lemos que “o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas”. A partir de então, em todo o Antigo Testamento, são frequentes as referências à atividade do Espírito Santo na terra. No entanto, no final de Seu ministério terreno, Jesus prometeu a Seus discípulos que o Espírito Santo viria em breve de uma nova maneira, diferente de tudo o que já havia acontecido na terra até aquele momento.
O Consolador Prometido
Em João 14:16–17, Jesus faz esta promessa:
“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre. O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.”
Podemos parafrasear esta promessa de Jesus da seguinte forma: “Estou pessoalmente com vocês há três anos e meio e agora estou para deixá-los. Depois que eu partir, outra pessoa virá para ocupar o meu lugar. Esta Pessoa é o Espírito Santo. Quando Ele vier, Ele permanecerá com vocês para sempre.”
Esta troca de pessoas prometida por Jesus foi realizada em duas etapas: primeiro, a ascensão de Jesus ao céu; dez dias depois, a descida do Espírito Santo no Dia de Pentecostes. Neste ponto da história, o Espírito Santo desceu tal qual uma Pessoa do céu e passou a residir na terra. Ele agora é o representante pessoal da Divindade aqui na terra. Sua morada real é o corpo dos verdadeiros crentes, chamados coletivamente de “a Igreja”. Para este corpo de crentes, Paulo diz em 1 Coríntios 3:16:
“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”
O grande ministério do Espírito Santo dentro da Igreja é preparar um corpo completo para Cristo. Após a conclusão, este corpo será, por sua vez, apresentado a Cristo assim como uma noiva é apresentada a um noivo. Quando terminar este ministério do Espírito Santo dentro da Igreja, Ele será novamente retirado da Terra, levando consigo o corpo completo de Cristo. Assim, podemos reformular a declaração de Paulo em 2 Tessalonicenses 2:7 da seguinte forma:
“Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora o retém até que do meio seja tirado.”
No mundo está o espírito do anticristo, trabalhando para o surgimento do próprio Anticristo. Nos discípulos de Cristo está o Espírito Santo, retendo o surgimento do Anticristo. Portanto, os discípulos que são habitados pelo Espírito Santo agem como uma barreira, impedindo o clímax da iniquidade e o surgimento final do Anticristo. Somente quando o Espírito Santo, juntamente com o corpo completo dos discípulos de Cristo, for retirado da terra, as forças da iniquidade poderão prosseguir sem restrições até atingir o seu máximo com a figura do Anticristo. Enquanto isso, é privilégio e responsabilidade dos discípulos de Cristo, pelo poder do Espírito Santo, “vencer” as forças do Anticristo e mantê-las sob controle.
Sal Que Cumpre Seu Propósito
Como o sal da terra, nós que somos discípulos de Cristo, portanto, temos duas responsabilidades principais. Primeiro, por causa da nossa presença, fazemos com que a terra esteja debaixo da contínua graça e misericórdia de Deus. Em segundo lugar, pelo poder do Espírito Santo dentro de nós, controlamos as forças da degeneração e da iniquidade até o tempo determinado por Deus.
Quando a Igreja cumpre essas responsabilidades, ela funciona como uma barreira que impede Satanás de realizar sua ambição suprema de dominar sobre toda a terra. Isso explica por que Paulo diz em 2 Tessalonicenses 2: “Antes daquele dia virá a apostasia e, então, será revelado o homem do pecado [o Anticristo]”. A palavra “apostasia” significa literalmente um afastamento da fé.
Enquanto a Igreja permanecer firme e inflexível em sua fé, ela terá o poder de impedir a manifestação final do Anticristo. O próprio Satanás entende isso muito bem e, portanto, seu objetivo principal é minar a fé e a retidão da Igreja. Uma vez que ele conseguir isso, a barreira para os seus propósitos será removida e o caminho estará aberto para ele ganhar controle espiritual e político sobre toda a terra.
Suponha que Satanás seja bem-sucedido porque nós, como cristãos, deixamos de cumprir nossas responsabilidades. E daí, o que aconteceria? O próprio Jesus nos dá a resposta. Tornamo-nos “sal que perdeu o seu sabor”. Ele nos adverte sobre o destino que aguarda esse sal insípido:
“Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (Mateus 5:13)
“Não serve para nada!” Isso é uma condenação severa, de fato. O que se segue? Somos “lançados fora” — rejeitados por Deus. Então somos “pisoteados pelos homens”. Os homens se tornam os instrumentos do julgamento de Deus sobre uma Igreja apóstata e sem sal. Se nós, na Igreja, falharmos em conter as forças da maldade, nosso julgamento será esse: seremos entregues a essas mesmas forças.
Paulo nos apresenta claramente duas alternativas em Romanos 12:21:
“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”
Existem apenas duas opções: vencer ou ser vencido. Não há meio-termo e nenhuma outra alternativa para nós. Podemos usar o bem que Deus colocou à nossa disposição para vencer o mal que nos confronta. Mas se falharmos em fazer isso, esse mesmo mal, por sua vez, nos vencerá.
Esta mensagem se aplica com especial urgência àqueles que ainda vivem em terras onde ainda se desfruta da liberdade de proclamar e praticar a fé cristã. Em muitos países hoje, os cristãos perderam essa liberdade. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas nessas terras foram sistematicamente doutrinadas a odiar e desprezar o cristianismo e tudo o que ele representa. Para as pessoas assim doutrinadas, não poderia haver maior satisfação do que pisotear os cristãos que ainda não estão sob seu jugo.
Se atendermos à advertência de Jesus e cumprirmos nossa função como sal na terra, podemos evitar que isso aconteça. Se não fizermos nada a respeito e, como consequência, passarmos pelo julgamento, ficaremos com remorso ao pensar que isso poderia ter sido evitado.

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