O Objetivo Da Provação

Teaching Legacy Letter
*First Published: 2020
*Last Updated: maio de 2026
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“Que é o homem, para que... cada manhã o visites, e cada momento o proves?” (Job 7:17-18) (ACF)
Não é esta uma revelação extraordinária: o facto que Deus nos visita cada manhã e nos prova a cada momento? A primeira vez que isto se tornou real para mim, tive de perguntar a mim mesmo: Estou preparado para receber uma visita de Deus a cada manhã? Será que acordo com essa expectativa? Depois questionei-me: Porque é que Deus nos prova? Qual é o Seu objetivo?
O dicionário Collins da língua inglesa dá-nos uma definição interessante do verbo provar: averiguar o mérito de uma pessoa... através da sujeição a certos testes. Deus não nos põe à prova porque está zangado connosco ou porque nos quer reprimir. Pelo contrário, a provação é uma marca do favor de Deus. Ele põe-nos à prova porque quer estabelecer o nosso valor.
Job
Um joelheiro irá sujeitar o ouro ou a prata a certos testes. Ele faz isso porque esses metais são valiosos. Ele não se dá ao trabalho de testar metais vis como o ferro ou o estanho. No mundo dos patriarcas existia um homem de uma justiça invulgar. O seu nome era Job. Deus orgulhava-se de Job. Ele até vangloriou-se dele a satanás: “Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.”(Job 1:8)(ACF, Almeida Corrigida Fiel)
Caracteristicamente, a resposta de satanás foi a de atribuir a Job uma motivação egoísta: “Ele só Te serve por causa do que pode obter de Ti.”
Como resposta a isto, Deus permitiu que satanás testasse Job. Primeiro, Ele permitiu que satanás destruísse tudo o que pertencia a Job: os seus bens, os seus servos e os seus filhos. Depois Deus também autorizou que satanás tocasse no corpo de Job: para o afligir com chagas da cabeça aos pés. Mas Ele não permitiu que satanás tirasse a vida a Job.
Job reconheceu que Deus o estava a pôr à prova. “Provando-me ele...”, disse ele, “sairei como o ouro ” (Job 23:10)(ACF), ou seja, ouro que foi refinado pelo fogo. Isto deu-lhe forças para aguentar. Ele clamou na agonia da sua alma, mas nunca desistiu.
Tipicamente, Elifaz e os outros dois amigos religiosos de Job concluíram que os sofrimentos de Job se deviam aos pecados que ele tinha cometido e proferiram todo o tipo de acusações terríveis contra ele. No entanto, no fim Deus justificou Job e repreendeu os seus amigos. Ele disse a Elifaz:
“... Não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.” (Jó 42:7) (ACF)
Abraão era outro homem justo que foi sujeito a provações rigorosas, até ao ponto de lhe ser exigido que oferecesse o seu filho a Deus em holocausto. Abraão foi sujeito a testes especiais porque tinha um destino especial: tornar-se o pai do povo escolhido de Deus, tanto judeus como cristãos. Deus aplica testes especiais àqueles para quem tem propósitos especiais.
O Novo Testamento avisa-nos claramente que, enquanto cristãos, devemos esperar ser submetidos a provações. Pedro compara a nossa fé ao ouro, cuja genuinidade tem de ser testada pelo fogo. (1 Pedro 1:7) Tiago diz-nos que devemos responder com gozo às provações:
“Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações; Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência [perseverança]. Tenha, porém, a paciência [perseverança] a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.” (Tiago 1:2-4) (ACF)
Tanto a Ruth como eu tivemos, em diferentes ocasiões, de nos arrepender e pedir o perdão de Deus por não termos respondido corretamente a algumas das nossas provações. Não as entendemos como motivo de grande gozo!
Para além disto, Tiago utiliza Job como exemplo de como devemos responder às provações:
“Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu, porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão.” (Tiago 5:11)(ARIB, Almeida Revisada Imprensa Bíblica)
Neste contexto, Deus convenceu-me de algo através do exemplo do Seu relacionamento com Moisés. Moisés tinha 80 anos quando o Senhor o encarregou de regressar ao Egipto para livrar Israel da sua escravidão. Contudo, quando Moisés de facto estava a regressar para o Egipto, o Senhor encontrou-se com ele e procurou matá-lo. (Êxodo 4:24-26). Porquê? Por causa da sua desobediência.
Moisés não tinha cumprido a aliança da circuncisão que o Senhor tinha feito com Abraão e os seus descendentes (Génesis 17:9-14). Só quando Moisés se arrependeu e circuncidou o seu filho é que o Senhor poupou a vida de Moisés e permitiu que ele prosseguisse o seu caminho. Deus preferia matar Moisés do que permitir que ele continuasse a sua missão em desobediência. A sua posição de líder não o dispensou da disciplina de Deus, mas atribuiu-lhe ainda mais responsabilidade.
Esta passagem tem uma aplicação pessoal na minha vida, agora que tenho 82 anos. Não posso esperar completar a missão que me foi dada por Deus se houver espaço para a desobediência na minha vida. Quando estamos sob a autoridade de Deus temos de humilhar-nos diante Dele e orar a oração de David no Salmo 139:23-24:
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno. (ACF)
Se com sinceridade dermos permissão ao Senhor para sondar os nossos corações, e se Ele não colocar o Seu dedo em alguma coisa que O ofende, poderemos concluir que estamos debaixo da provação de Deus, e não da Sua correção. Aquilo que Deus revela irá determinar como iremos responder. A nossa resposta à correção deve ser arrependimento; a nossa resposta à provação deve ser perseverança. Mas se insistirmos em tentar perseverar quando devemos arrepender-nos somos culpados de teimosia e insensibilidade.
As questões básicas sobre pecado ou justiça são definidas na tentação original de satanás a Adão e Eva. O seu título grego diabolos (em português diabo) significa difamador. Difamar alguém significa difamar ou caluniar o seu carácter. Esta é a principal atividade de satanás.
Primeiro que tudo, satanás difama o carácter do próprio Deus. Daí a pergunta que coloca a Eva: “É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda árvore do jardim’?” (Génesis 3:1). Satanás insinuou que Deus era um déspota: arbitrário, injusto e pouco afetuoso. Deus estava a impedir o acesso de Adão e Eva a uma forma “superior” de conhecimento, a qual poderiam alcançar se provassem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
O objetivo de satanás era debilitar a sua confiança na bondade de Deus quando, na verdade, Deus já os tinha agraciado com tudo o que era bom, belo e agradável.
- A partir da falta de confiança na bondade de Deus,
- Adão e Eva deixaram de crer na palavra de Deus e daí;
- Passaram para um ato de desobediência.
Houve três níveis na sua queda: desconfiança, incredulidade e desobediência.
Pela fé em Cristo, Deus providenciou uma redenção que inverte o processo descendente da queda. Ela substitui a incredulidade pela fé, a desobediência pela obediência e a desconfiança pela confiança. O primeiro passo é a fé que conduz à obediência. Mas o processo não está completo até que a fé se tenha desenvolvido em confiança.
Qual é a diferença entre fé e confiança? Uma resposta não-teológica seria: fé é um ato; confiança é uma atitude. (Foi Smith Wigglesworth que realçou continuamente que fé é um ato). O Salmo 37:5 proporciona uma ilustração clara da diferença entre fé enquanto ato, e confiança enquanto atitude:
“Entrega o teu caminho ao Senhor, confia Nele, e Ele tudo fará.” (ARIB)
Entrega descreve um ato único de fé; confia descreve uma atitude contínua que se segue ao ato inicial de entregar. Depois disso, Deus assume o comando: Ele tudo fará. Uma ilustração simples seria a de fazer um depósito numa conta poupança. Entrega o dinheiro ao caixa do banco e recebe um recibo. Isso é entregar. Depois disso, não fica acordado a noite inteira a pensar: Será que o banco está realmente a cuidar do meu dinheiro? Será que vou receber os juros que me devem? Limita-se a guardar o recibo num lugar seguro e a dormir descansadamente. Isso é confiança.
Muitos cristãos dão o primeiro passo, um ato de fé, mas depois não mantêm uma atitude de confiança. Estranhamente, para muitos de nós é mais fácil confiar num banco terreno do que confiar em Deus que está no céu!
Um dos objetivos principais das provações de Deus é produzir em nós confiança. Isto revelou ser verdade para Job. No meio de todas as suas tribulações ele afirmou: “Embora ele me mate, ainda assim esperarei nele”. (Job 13:15) (NVI) Para além disso, a confiança permitiu a Job levantar momentaneamente os seus olhos acima do reino temporal e vislumbrar a eternidade e a ressurreição:
“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins [o meu coração] se consomem no meu interior.” (Jó 19:25-27)(ACF)
Porque é que a confiança é tão importante? Porque ela revela a nossa estima pelo carácter de Deus. Quando Adão e Eva cederam à tentação de satanás, as suas ações falaram mais alto do que qualquer palavra que tivessem proferido. Eles estavam (pelos seus atos) a dizer: “Deus não é justo nem afetuoso. Ele não nos trata com justiça. Não podemos confiar n’Ele.”
A nossa salvação do pecado só fica completa quando os efeitos da queda tiverem sido desfeitos e quando for produzida em nós esta qualidade de confiança. Isso pode significar que necessitamos de passar por muitos testes. É importante que nunca percamos de vista a finalidade do objetivo de Deus: produzir em nós uma confiança inabalável na Sua absoluta fidelidade.
O próprio Jesus proporcionou-nos o exemplo supremo da confiança. No cumprimento do plano de Seu Pai, Ele foi entregue a homens iníquos, cruéis e ímpios. Eles zombaram Dele, cuspiram-Lhe, açoitaram-No, despiram-No e pregaram-No na cruz. Ele acabou por clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? ” (Mateus 27:46) (ACF)
No entanto, em tudo isso a Sua confiança na fidelidade do Seu Pai nunca foi abalada. No seu último suspiro Ele entregou o Seu espírito nas mãos do Pai.
Deus não irá permitir que sejamos provados para além das nossas forças. Ele não irá esperar de nós aquilo que exigiu de Jesus; e talvez nem o que Ele exigiu de Job. Todas as provações a que somos sujeitos são concebidas para moldar o nosso carácter, até sermos em Cristo tudo aquilo que Deus nos criou para sermos.
Código: TL-L133-100-POR